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2022-10-03

#Ler para a paz (MIBE 2022) 1

 


Coimbra, 22 de maio de 1944 - Combater é, em termos absolutos, uma diminuição. O homem quer defenda a pátria, quer defenda as ideias, desde que passa os dias aos tiros ao vizinho, mesmo que o vizinho seja o monstro dos monstros, está a perder grandeza. Sempre que por qualquer motivo a razão passou a servir a paixão, houve um apoucamento do espírito, e é difícil que o espírito se salve num processo onde ele entra diminuído. Mas quando numa comunidade alguém endoidece e desata a ferir a torto e a direito, é preciso dominar o possesso de qualquer forma, e a guerra é fatal. Então, embora sabendo que vai empobrecer a sua alma, o homem normal começa a lutar, e só a morte ou o triunfo o podem fazer parar. É trágico, mas é natural. O que é contra todas as leis da vida é ficar ao lado da contenda como espectador. Sendo uma diminuição combater, é uma traição sem nome lavar as mãos do conflito, e passar as horas de binóculo assestado a contemplar a desgraça do alto dum monte. Assim é que nada se salva.

Miguel Torga, Diário, Vols. I a IV, (1944) 6.ª edição conjunta, Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2021

2021-02-16

Do toque dos sinos, Miguel Torga

 

Voltamos, neste novo confinamento, a textos que se relacionam com epidemias.

Em Novos contos da montanha, Miguel Torga mostra-nos um jovem a recuperar da doença (a pneumónica, ou gripe espanhola) que terá provocado mais de 100 000 óbitos no nosso país. O conto começa assim:

 

 

«– A Lucinda? – perguntou o Pedro, coberto de suor, lívido, a acabar de sair de uma modorra de morte.

– Está boa… – respondeu a mãe, com a naturalidade que pôde.

– E por que não vem cá?

– Isto pega-se, filho. Ela bem queria; eu é que não consinto…

Uma onda de tristeza, que lhe embaciou a imagem da namorada, atravessou os olhos febris do rapaz. Depois, exausto do esforço de vir à tona do poço, desceu as pálpebras e caiu na sonolência em que vivia há dias.

No princípio da epidemia, de ouvido atento, ia vigiando o mundo através do dobrar do sino. O som a entrar no quarto abafado e ele a inquirir inquieto:

– Quem foi, minha mãe?

– O Belmiro.

– O pai ou o filho?

– O pai.»

Miguel Torga, «Renovo», Novos contos da montanha, in Contos, 5.ª edição conjunta, Alfragilde, Dom Quixote, 2009, p.453