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2022-10-28

#lerparaa paz MIBE 2022 -19

 



Ruínas


A lua quebra os seus espelhos nas ruínas enquanto Beirute faz muletas de sangue e cinzas e coxeia com elas.

É verdade. O céu tem correntes à volta dos pés, e as estrelas têm adagas presas na cintura.

O dia esfrega os olhos sem acreditar no que vê.

Chora, Beirute, limpa as tuas lágrimas com o lenço do horizonte. Escreveste de novo ao céu, mas estavas errada e agora os teus erros escrevem-te.

Não tens outro alfabeto?

 

Adonis, O arco-íris do instante antologia poética, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2016, p .95

2022-10-14

#lerparaapaz , MIBE 2022 - 9




O Soldado morto

 

Os infinitos céus fitam seu rosto

Absoluto e cego

E a brisa agora beija a sua boca

Que nunca mais há-de beijar ninguém.

 

Tem as duas mãos côncavas ainda

De possessão, de impulso, de promessa,

Dos seus ombros desprende-se uma espera

Que dividida na tarde se dispersa.

 

E a luz, as horas, as colinas

São como pranto em torno do seu rosto

Porque ele foi jogado e foi perdido

E no céu passam aves repentinas.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar novo (1958), Obra poética, Alfragide: Caminho, 2010, p.330 

2022-10-11

#Ler para a paz (MIBE2022) -6

 


General, o teu tanque é um carro forte.

Arrasa um bosque e esmaga centos de homens.

Mas tem um defeito:

Precisa de um condutor.

 

General, o teu bombardeiro é forte.

Voa mais rápido que uma tempestade e carrega mais que um elefante.

Mas tem um defeito:

Precisa de um mecânico.

 

General, o homem é muito hábil.

Sabe voar e sabe matar.

Mas tem um defeito:

Sabe pensar.

 

Bertolt Brecht, «Cartilha de guerra alemã» (c.1940), Poemas e canções, Coimbra: Almedina, 1975, pp. 158-159

2022-10-10

#Ler para a paz (MIBE 2022) -5

 


Muito ao longe, na subida, o mais longe que se podia ver, havia dois pontos negros, ao meio, como nós, mas eram dois alemães que há um bom quarto de hora estavam muito entretidos a fazer fogo.

Talvez soubesse o nosso coronel a razão por que esses homens faziam fogo, e talvez os alemães o soubessem também, mas eu realmente é que não sabia. Por mais longe que procurasse na minha memória, não havia feito nada aos Alemães. Tinha sido sempre muito amável e muito educado para com eles. Conhecia um pouco os Alemães, tinha até frequentado a escola na terra deles, em pequeno, nos arredores de Hanôver. Falara a sua língua. Nessa altura eram um monte cretinozinhos berrões com olhos pálidos e furtivos como os dos lobos; íamos juntos apalpar as miúdas depois da escola, nos bosques ali próximos, e atirávamos também com balestras e com aquelas pistolas que se compram apenas por quatro marcos. Bebíamos cerveja açucarada. Mas daí a atirarem-nos agora à tola sem nos virem falar primeiro, ali bem no meio da estrada, havia uma certa distância e até mesmo um abismo. Muito diferente.

A guerra, em suma, era tudo quanto menos eu conseguia compreender. Aquilo não podia continuar.

 

Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao fim da noite (1932), Lisboa: Ulisseia, 1983, p.15

2022-10-06

#Ler para a paz (MIBE 2022) - 3


 Sobre todo o campo, antes tão bonito e alegre, com as baionetas cintilantes e os vapores do sol da manhã, pairava agora uma bruma de humidade e de fumo e sentia-se agora um estranho cheiro ácido a salitre e a sangue. Formaram-se pequenas nuvens e começou a chuviscar, uma chuva miudinha sobre os mortos, sobre os feridos, sobre os amedrontados, sobre os extenuados e os hesitantes, como que a dizer: «Chega, chega, homens. Parem... Reconsiderem. O que estão vocês a fazer?»

Homens exaustos, sem comida, de uma e de outra parte, começavam igualmente a ter dúvidas sobre se deviam ainda exterminar-se uns aos outros, e em todos os rostos se notava a hesitação, e em cada alma se erguia igualmente a pergunta: «Porquê, para quem hei de eu matar e ser morto? Matem quem quiserem, façam o que quiserem, mas eu não quero mais!»

Este pensamento, ao anoitecer, amadureceu de igual modo no espírito de cada um. A qualquer momento todos aqueles homens podiam horrorizar-se com o que estavam a fazer, abandonar tudo e fugir para onde calhasse.

Lev Tolstoi, Guerra e Paz, volume II (1869), Lisboa: Relógio d’Água, 2013, p.235

2022-10-04

#Ler para a paz (MIBE 2022) 2



Aviso de mobilização

 

Passaram pelo meu nome e eu era um número
- menos que a folha seca de um herbário.
Colheram-no com mãos de zelo e gelo;
escreveram-no, sem mágoa, num postal.
 
Convite a que morresse... mas por quê?
Convite a que matasse... mas por quem?
Ó vago amanuense, ó apressado
e súbito verdugo, que te ocultas
numa rubrica rápida, ilegível,
que dirás tu do meu e de outros nomes,
que dirás tu de mim e de outros mais,
no Dia do Juízo já tão próximo
 - que dirás tu de nós, se nem tremeu,
na rápida rubrica, a tua mão?
 
Bem sei que a tua mão só executa;
mas para além do ombro a ti pertences.
Bem puderas chorar, ter hesitado...
- A mancha de uma lágrima bastara
para dar um sentido a esta morte
a que a tua indiferença nos convoca.

 

David Mourão-Ferreira, «Aviso de mobilização, Tempestade de Verão» (1950-1953) in Obra Poética(1948-1995), Porto: Assírio e Alvim, 2019, p.96

2022-10-03

#Ler para a paz (MIBE 2022) 1

 


Coimbra, 22 de maio de 1944 - Combater é, em termos absolutos, uma diminuição. O homem quer defenda a pátria, quer defenda as ideias, desde que passa os dias aos tiros ao vizinho, mesmo que o vizinho seja o monstro dos monstros, está a perder grandeza. Sempre que por qualquer motivo a razão passou a servir a paixão, houve um apoucamento do espírito, e é difícil que o espírito se salve num processo onde ele entra diminuído. Mas quando numa comunidade alguém endoidece e desata a ferir a torto e a direito, é preciso dominar o possesso de qualquer forma, e a guerra é fatal. Então, embora sabendo que vai empobrecer a sua alma, o homem normal começa a lutar, e só a morte ou o triunfo o podem fazer parar. É trágico, mas é natural. O que é contra todas as leis da vida é ficar ao lado da contenda como espectador. Sendo uma diminuição combater, é uma traição sem nome lavar as mãos do conflito, e passar as horas de binóculo assestado a contemplar a desgraça do alto dum monte. Assim é que nada se salva.

Miguel Torga, Diário, Vols. I a IV, (1944) 6.ª edição conjunta, Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2021