Muito ao longe, na subida, o mais longe que se podia ver, havia dois pontos negros, ao meio, como nós, mas eram dois alemães que há um bom quarto de hora estavam muito entretidos a fazer fogo.
Talvez soubesse o nosso coronel a razão por que esses homens faziam fogo, e talvez os alemães o soubessem também, mas eu realmente é que não sabia. Por mais longe que procurasse na minha memória, não havia feito nada aos Alemães. Tinha sido sempre muito amável e muito educado para com eles. Conhecia um pouco os Alemães, tinha até frequentado a escola na terra deles, em pequeno, nos arredores de Hanôver. Falara a sua língua. Nessa altura eram um monte cretinozinhos berrões com olhos pálidos e furtivos como os dos lobos; íamos juntos apalpar as miúdas depois da escola, nos bosques ali próximos, e atirávamos também com balestras e com aquelas pistolas que se compram apenas por quatro marcos. Bebíamos cerveja açucarada. Mas daí a atirarem-nos agora à tola sem nos virem falar primeiro, ali bem no meio da estrada, havia uma certa distância e até mesmo um abismo. Muito diferente.
A guerra, em suma, era tudo quanto menos eu conseguia compreender. Aquilo não podia continuar.
Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao fim da noite (1932), Lisboa: Ulisseia, 1983, p.15

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