Trouxeram-nos até aqui, trouxeram estes camaradas, para que impusessem o último ímpeto a um combate que já durou o dia inteiro, para que reconquistassem a posição naquelas colinas e nas aldeias que ardem atrás delas, tomadas pelos inimigos dois dias antes. É um regimento de voluntários recentemente colocado na frente de batalha, estudantes na maior parte dos casos, sangue jovem, portanto. Foram alertados durante a noite, viajaram de comboio até de madrugada e marcharam à chuva até ao cair da tarde, por caminhos terríveis. Nem de caminhos se tratava realmente: as estradas estavam atravancadas e tiveram de caminhar durante sete horas por campos e pântanos, com os casacos encharcados, o equipamento de assalto às costas, um passeio nada agradável. Quem não quisesse perder as botas, era obrigado a curvar-se quase a cada passo para puxar pela presilha e retirar o pé do fundo da lama. Por isso haviam levado mais de uma hora para atravessar um pequeno prado. Ei-los ali chegados, o sangue jovem suportou todas as vicissitudes, os corpos, nervosos e já exaustos, ainda de alerta porém, graças às mais profundas reservas vitais, não reclamam nem o sono nem a comida de que foram privados. Os rostos a pingar, salpicados de lama, emoldurados pelas correias abotoadas debaixo do queixo, ardem sob os capacetes forrados de cinzento e atirados para trás. Ardem de cansaço e de desespero pelas perdas que sofreram ao longo da marcha pela floresta barracenta. Porque o inimigo, alertado pela sua aproximação, lançara projéteis de balas e granadas de grande calibre sobre o seu caminho, espalhando chispas e chamas por toda a floresta e atingindo o grupo em marcha, uivando e vomitando fogo por todos os lados, fustigando os imensos campos recém-lavrados.
Thomas Mann, A Montanha Mágica (1924), Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2009, p.813
Sem comentários:
Enviar um comentário