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2022-10-07

#Ler para a paz (MIBE 2022) - 4

 



Trouxeram-nos até aqui, trouxeram estes camaradas, para que impusessem o último ímpeto a um combate que já durou o dia inteiro, para que reconquistassem a posição naquelas colinas e nas aldeias que ardem atrás delas, tomadas pelos inimigos dois dias antes. É um regimento de voluntários recentemente colocado na frente de batalha, estudantes na maior parte dos casos, sangue jovem, portanto. Foram alertados durante a noite, viajaram de comboio até de madrugada e marcharam à chuva até ao cair da tarde, por caminhos terríveis. Nem de caminhos se tratava realmente: as estradas estavam atravancadas e tiveram de caminhar durante sete horas por campos e pântanos, com os casacos encharcados, o equipamento de assalto às costas, um passeio nada agradável. Quem não quisesse perder as botas, era obrigado a curvar-se quase a cada passo para puxar pela presilha e retirar o pé do fundo da lama. Por isso haviam levado mais de uma hora para atravessar um pequeno prado. Ei-los ali chegados, o sangue jovem suportou todas as vicissitudes, os corpos, nervosos e já exaustos, ainda de alerta porém, graças às mais profundas reservas vitais, não reclamam nem o sono nem a comida de que foram privados. Os rostos a pingar, salpicados de lama, emoldurados pelas correias abotoadas debaixo do queixo, ardem sob os capacetes forrados de cinzento e atirados para trás. Ardem de cansaço e de desespero pelas perdas que sofreram ao longo da marcha pela floresta barracenta. Porque o inimigo, alertado pela sua aproximação, lançara projéteis de balas e granadas de grande calibre sobre o seu caminho, espalhando chispas e chamas por toda a floresta e atingindo o grupo em marcha, uivando e vomitando fogo por todos os lados, fustigando os imensos campos recém-lavrados.

Thomas Mann, A Montanha Mágica (1924), Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2009, p.813

2020-04-04

do segredo sobre a epidemia - Mann




E, durante todo esse tempo, seguia a pista do vergonhoso segredo que a cidade guardava cuidadosamente no seu seio tal como ele guardava o seu próprio segredo – e tudo o que conseguia saber alimentava a sua paixão com esperanças vagas e ilegais. Folheava jornais pelos cafés tentando encontrar uma reportagem do progresso da doença, e nas folhas alemãs, que tinham deixado de aparecer no hotel, encontro séries de relatórios contraditórios. As mortes variavam entre vinte, quarenta, cem, ou mais: e no jornal do dia seguinte a existência da peste era, se não rotundamente negada, pelo menos reduzida a alguns casos esporádicos que num porto de mar se justificavam. Depois disso, as prevenções vociferavam de novo, assim como os protestos contra o jogo pouco escrupuloso das autoridades.
E o nosso solitário sentiu que era uma espécie de cúmplice desse segredo; sentia uma fantástica satisfação em fazer perguntas a pessoas interessadas nele e em as obrigar a mentir descaradamente, negando tudo. Um dia atacou o gerente, esse homenzinho de passos ligeiros e sobrecasaca francesa, que se movia por entre os hóspedes durante o almoço supervisando o serviço e fazendo-se socialmente agradável. Ele parou junto da mesa de Aschenbach para trocar uma saudação, e o hóspede perguntou-lhe, com um ar negligente e casual: – Por que razão estão sempre a desinfetar a cidade de Veneza? – Uma ordem da Polícia – respondeu ele habilmente – como medida de precaução para proteger a saúde pública durante este tempo ardente. – Muito digna de louvor a Polícia – respondeu Aschenbach gravemente.
Thomas Mann, «Morte em Veneza», Os melhores contos de Thomas Mann, Lisboa; Arcádia, 1966, pp.74-75