Mostrar mensagens com a etiqueta Às Avessas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Às Avessas. Mostrar todas as mensagens

2014-07-02

Memórias



O jornal da escola, Às Avessas, continua à venda na Biblioteca. Colaborar, enviando notícias e, também, adquiri-lo, significa divulgar a escola. Publicamos, como modo de o promover, mais um o artigo, Memórias, assinado por C. S., 10.º, editado no último número do jornal, 


            Memórias
Lembro-me de correr à beira-mar com o meu pai (ainda mal me equilibrava de pé) naquelas praias ventosas de Santa Cruz, dos piqueniques no meio dos bosques, das suas voltas a cavalo, enquanto eu o admirava com aquela postura que fazia com que se sentisse o seu merecido respeito através da brisa. Estas são as memórias que tenho dele, antes de partir para a sua última guerra. Já da minha mãe, só consigo ouvir a  sua voz “José, vai buscar água que ela não vem sozinha!”…
              Memórias, de facto, não tenho muitas.  Agora, que já cá vagueio há algum tempo, é que parei para pensar, porque me apercebi de que qualquer dia destes posso partir desta vida sem nunca me conhecer a mim próprio.
                Quem sou eu? Bem, de nome, José Antunes, um empresário que trabalha e dorme. Por dentro, sou um vazio. Em novo, sonhava ser militar, tal como o meu pai. Mas o país evoluiu e convenceram-me de que os estudos é que nos iriam fazer felizes... Segui os estudos, consegui este trabalho e só houve um único dia em que fui trabalhar feliz: o primeiro.
Nem o amor, esse sentimento que comanda, se aproxima de mim. Uma vez, chegou perto mas, mais tarde, apercebi-me de que era um jogo de “toca e foge”. Uma rapariga que conheci e que pintou as paredes do meu mundo que toda a vida havia sido cinzento. Nunca tinha sentido nada assim, um amor que permanecia dia após dia, passeio após passeio, jantar após jantar, dormida após dormida, felicidade após felicidade… até um dia. Nesse tal dia, despertei com um sorriso na cara, mas essa expressão desapareceu quando não a encontrei, nem qualquer rasto dela como se nunca tivesses existido. Onde estavam os seus belos cabelos ruivos? Os seus olhos verdes? A sua face sarapintada? E o seu sorriso angelical que escondia uma personalidade diabólica? Nunca mais a vi, até hoje, o dia em que me deu para pensar. Já não quero refletir mais. Estou preparado para o fim, venha ele quando vier. E no que diz respeito ao meu percurso de vida, não me orgulho nem me desiludo. Só espero que do outro lado não existam memórias para me devorarem de dentro para fora, como aconteceu desta vez.

                                                                     
   
Imagem: http://noticias.uol.com.br/ciencia/album/2014/02/17/pesquisas-sobre-o-cerebro-e-mente.htm#fotoNav=12

2014-06-26

O que eles escrevem

Reproduzimos um texto publicado no último jornal Às Avessas, página 8, da autoria de A.M. do 10.º I:

Vidas (Im)prováveis
MARIA
Maria. Nome que os meus pais ousaram dar-me. 67 anos e aqui estou eu, sentada na minha modesta casa ainda a escrever.

Toda a minha vida foi feita de altos e baixos, como todas as outras , certamente.
Dei por mim a tentar recordar as minhas vivências de infância e a escrevê-las. Gostava de escrever sobre uma infância cheia de alegria, animação, magia e aventuras. Porém, tudo o que vem da minha história é contraditório. Gritos, pratos e copos a partir, discussões acesas e silêncios sombrios. É triste mas é o que me marca até hoje. É assustador e nada mágico, confesso. Sempre quis escrever, aliás sempre escrevi. Com os problemas vividos em casa, a única coisa que me permitia voar em pensamentos para outro lugar era a escrita, e ainda hoje o é. Lembro-me do meu caderno azul cheio de flores e do modesto lápis, provavelmente os objetos mais alegres e mágicos que tive na minha infância. Nele escrevia as histórias que sempre quis viver. Sonhava ter uma casa grande com um parque, um cão e um belo jardim. Sonhava ser uma menina feliz que vivia aventuras nas traseiras da sua casa. E sempre sonhei um dia ser escritora. Mas não passou de um sonho, aquele sonho de ser uma escritora reconhecida pelas pessoas. As minhas histórias ainda hoje estão guardadas no canto da arrecadação. Mas como é nostálgico e assustador rever momentos do passado!...

Deixei de me importar com os problemas que sempre me acompanharam desde cedo e me obrigaram a crescer cedo demais, o que não me permitiu viver com os meus príncipes, princesas e reinos encantados. Aprendi que a vida não pode ser escrita a lápis, os nossos erros e os maus momentos também não podem ser apagados, nem mesmo com a melhor borracha. Nós somos a caneta e a tinta permanente que escreve a nossa própria vida, a nossa própria história, os nossos erros e as nossas vitórias. Foi a partir do momento em que escrevi a minha primeira vitória que passei a viver feliz.

Hoje, estou na minha casa, no meu jardim cheio de flores, e com o meu cão a viver mais uma aventura. Apesar de envelhecidas e fracas, as minhas mãos permanecem a escrever, melhor que ontem e pior que amanhã.