2021-04-17

Da doença que nos cerca, Mário Cláudio

 

O pintor modernista Amadeo de Sousa Cardoso (1887-1918) é uma das vítimas da pneumónica. A sua biografia é ficcionada por Mário Cláudio na obra Amadeo (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores de 1984), primeiro dos três livros que publicará sobre figuras do Norte português (além de Amadeo, Guilhermina Suggia e Rosa Ramalho) reunidos em Trilogia da mão, Dom Quixote:1993. 

No excerto do romance escolhido, a doença começa a aproximar-se:

 

O vírus da pneumónica alastra já por Manhufe, acobertado à modorra dos pântanos, retido no hálito dos matagais, enleado nos bardos úberes de cachos, por que é esse o mês de Setembro. O alarme se dá, sobretudo, entre os ilustrados na leitura dos periódicos, titulares da terra, que no meio dos campesinos a morte é convívio de todas as horas. E o pânico em que soçobra Amadeo, nesse pronúncio da irrealização da fantasia acalentada, é opressão que se abstém de transmitir, possuído do fantasma ainda da virilidade, que só o desabafo lhe permite como fundamento da recuperação da força. Circulam as notícias pelo telégrafo, há acenos de amigos longínquos que vão tombando, intoleráveis expectativas de que decorra o tempo da incubação. A casa da Dona Ana Guedes, respeitabilíssima matrona local, vereadora e filantropa, foi já convertida em hospital. Com o máximo dos zelos se marcam talheres e roupa branca, que a seguir se escaldam em água fervente, ainda assim cheirados pelo homem que em tudo suspeita a presença minante. Fica-se pelo quarto, de gelosias cerradas, no atelier, outras vezes, com uma espátula entre os dedos, fitando a tela deserta, na mais concentrada imobilidade.

 

Mário Cláudio, Amadeo, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, pp.107-108

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