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2021-04-05

Recomeçamos

 Voltamos à escola. 

A biblioteca, nesta primavera que se vê das nossas janelas, está aberta. Para já para os alunos do 3.º ciclo, mas esperamos que no dia 19 tenhamos também os alunos do secundário. 

 

 


Abrimos hoje  o espaço físico da biblioteca e aqui deixamos um poema de Gastão Cruz de um livro do nosso fundo documental:

 

Não cantes o meu nome em pleno dia

não movas os seus ásperos motivos

sob a luz dolorosa sob o som 

da alegria

 

Não movas o meu nome sob as tuas

mãos molhadas do choro doutros dias

não retenhas as sílabas caídas

do meu nome da tua boca extinta

 

Não cantes o meu nome a primavera

já o ameaça hoje principia

a vida do meu nome não o cantes

com a tua alegria 

Gastão Cruz, «Imagem da linguagem, 7» in «Teoria da fala», Poemas reunidos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p.173

2020-12-11

Faça lá um poema, José Gomes Ferreira

 


I

A Poesia tem pés de terra.

Quando a atiramos para o céu

fica só e transida

no meio das estrelas

- a chorar com saudades dos homens

e da morte.

 

II

Que bom não saber como um poema acaba!

(... nem que sol segreda

o fio da baba

dos bichos-da-seda.)

 

Apenas palavras que se buscam no papel

com astros dentro famintas de encontrar

o ilógico da Outra Voz que por acaso revele

o avesso da sombra a fingir de luar.

Ferreira, José Gomes, Poeta militante, Viagem do século vinte em mim,  2.º vol, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, p.107

(quota na BESC 821.134.3-1 FER POE II)

 

  O Plano Nacional de Leitura 2017-2027 (PNL2027) e os CTT - Correios de Portugal, S.A. (CTT), com intenção de incentivar o gosto pela leitura e pela escrita de poesia, celebram o Dia Mundial da Poesia,com o concurso Faça lá um poema, aberto a todos os alunos do 3.º ciclo e do secundário.

A participação é livre e individual e recebemos na biblioteca ou por mail os poemas que queiram apresentar a concurso até dia 15 de dezembro para depois selecionarmos três por ciclo e os submetermos ao concurso.

Podem ler o regulamento aqui .

Participem e leiam poesia.

2020-12-02

Faça lá um poema, Sophia

 

 

 


 

                                             A ESCRITA

 

No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho

Lord Byron usava as grandes salas

Para ver a solidão espelho por espelho

E a beleza das portas quando ninguém passava

 

Escutava os rumores marinhos do silêncio

E o eco perdido de passos num corredor longínquo

Amava o liso brilhar do chão polido

E os tectos altos onde se enrolam as sombras

E embora se sentasse numa só cadeira

Gostava de olhar vazias as cadeiras

 

Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital

Mas a escrita exige solidões e desertos

E coisas que se vêem como quem vê outra coisa

 

Pudemos imaginá-lo sentado à sua mesa

Imaginar o alto pescoço espesso

A camisa aberta e branca

O branco do papel as aranhas da escrita

E a luz da vela – como em certos quadros  

Tornando tudo atento

 

Andresen, Sophia de Mello Breyner  Obra poética. Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004, p.54

(cota na BESC: 821.134.3-1 AND ILH)

 

  O Plano Nacional de Leitura 2017-2027 (PNL2027) e os CTT - Correios de Portugal, S.A. (CTT), com intenção de incentivar o gosto pela leitura e pela escrita de poesia, celebram o Dia Mundial da Poesia,com o concurso Faça lá um poema, aberto a todos os alunos do 3.º ciclo e do secundário.

A participação é livre e individual e recebemos na biblioteca ou por mail os poemas que queiram apresentar a concurso até dia 15 de dezembro para depois selecionarmos três por ciclo e os submetermos ao concurso.

Podem ler o regulamento aqui .

Participem e leiam poesia.

 

 

Faça lá um poema, Alexandre O'Neill

 

 


 

 

Cão

Cão passageiro, cão estrito,

cão rasteiro cor de luva amarela,

apara-lápis, fraldiqueiro,

cão liquefeito, cão estafado,

cão de gravata pendente,

cão de orelhas engomadas,

de remexido rabo ausente,

cão ululante, cão coruscante,

cão magro, tétrico, maldito,

a desfazer-se num ganido,

a refazer-se num latido,

cão disparado: cão aqui,

cão além, e sempre cão.

Cão marrado, preso a um fio de cheiro,

cão a esburgar o osso

essencial do dia a dia,

cão estouvado de alegria,

cão formal da poesia,

cão-soneto de ão-ão bem martelado,

cão moído de pancada

e condoído do dono,

cão: esfera do sono,

cão de pura invenção, cão pré-fabricado,

cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,

cão de olhos que afligem,

cão-problema…

 

Sai depressa, ó cão, deste poema!

 

O’Neill, Alexandre, – Poesias completas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p.157

(cota na BESC: 821.134.3-1 O’NE POE)

 

  O Plano Nacional de Leitura 2017-2027 (PNL2027) e os CTT - Correios de Portugal, S.A. (CTT), com intenção de incentivar o gosto pela leitura e pela escrita de poesia, celebram o Dia Mundial da Poesia,com o concurso Faça lá um poema, aberto a todos os alunos do 3.º ciclo e do secundário.

A participação é livre e individual e recebemos na biblioteca ou por mail os poemas que queiram apresentar a concurso até dia 15 de dezembro para depois selecionarmos três por ciclo e os submetermos ao concurso.

Podem ler o regulamento aqui .

Participem e leiam poesia.

2020-11-25

Faça lá um poema, Eugénio Andrade

 

 

 


                                                         

                                                        Aprendizagem da poesia

                                                     Durou muitos anos, aquele verão.
                                                     Crescíamos sem pressa com o trigo
                                                     e as abelhas. Com o sol
                                                     corríamos para a água, à noite
                                                     num verso de Shakespeare ou
                                                     na nossa boca uma estrela dançava.
                                                     Aprendíamos a amar, aprendíamos
                                                     a morrer. A todos os sentidos
                                                     pedíamos para escutar o rumor,
                                                     não do mundo, que ninguém abarca,
                                                     apenas da brancura duma folha
                                                     e outra folha ainda de papel.


                                                                                              Andrade, Eugénio – Poesia. Fundação Eugénio de Andrade,2005, p.558
                                                                                               (cota na BESC: 821.134.3-1 AND POE)

 

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2020-11-24

Faça lá um poema, Carlos de Oliveira

 

 
 
 
Lavoisier

                                                                       Na poesia,  
                                                                       natureza variável
                                                                       das palavras,
                                                                       nada se perde
                                                                       ou cria,
                                                                       tudo se transforma:
                                                                       cada poema,
                                                                       no seu perfil
                                                                       incerto
                                                                       e caligráfico,
                                                                       já sonha outra forma.

                                                                            Oliveira, Carlos de  Trabalho poético. Lisboa: Assírio e Alvim, 2003, p.201
                                                                            (cota na BESC: 821.134.3-1 OLI TRA)

 

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Participem e leiam poesia.

2020-11-23

Faça lá um poema, Manuel Alegre

 


Um verso

 

Um verso. Nada mais que um verso cintilante

Contra o equilíbrio cósmico e a expansão do universo

Na cauda do cometa mais errante

No coração do espaço e seu avesso

Uma sílaba cantante

Um verso.

 

Para além dos buracos negros e das linhas interestelares

Um som no espaço

Um eco pelos ares

Um timbre um risco um traço.

 

Um som de um som: alquimia

De signos e sinais

Não mais do que outra forma de energia

Imagens espectrais

De um sol inverso

Um ponto luminoso de fractais

Um verso.

 

Alegre, Manuel – Senhora das Tempestades. Lisboa: Publicações Dom Quixote,1998, p.75

(cota na BESC: 821.134.3-1 ALE SEN)

 

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