2020-04-06

do que dizem os governos - Saramago




O Governo lamenta ter sido forçado a exercer energicamente o que considera ser seu direito e seu dever, proteger por todos os meios as populações na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidémico de cegueira, provisoriamente designado por mal-branco, e desejaria poder contar com o civismo e a colaboração de todos os cidadãos para estancar a propagação do contágio, supondo que de contágio se trata, supondo que não estamos apenas perante uma série de coincidências por enquanto inexplicáveis. A decisão de reunir num mesmo local as pessoas afetadas, e, em local próximo, mas separado, as que com elas tiveram algum contacto não foi tomada sem séria ponderação. O Governo está perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam, como cumpridores cidadãos que devem de ser, as responsabilidades que lhes competem, pensando também que o isolamento em que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações, um ato de solidariedade para com o resto da comunidade nacional.
José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, (19.ª ed) Lisboa: Caminho, 2011 pp.258-259

2020-04-05

do amor na quarentena - Decameron de Boccaccio




«Graciosas Senhoras, quanto mais penso cá comigo e contemplo como são as senhoras naturalmente piedosas, mais concluo que esta obra lhes parecerá austera e pesada no princípio, assim como o é a dolorosa lembrança da última peste, com que ela se inicia, para todos os que a viram ou que de algum outro modo souberam de seus estragos. Mas não quero que isso as assuste e impeça de prosseguir, como se, lendo houvessem de estar sempre entre suspiros e lágrimas. Este horripilante início não deve ser diferente do que é para o caminhante a montanha acidentada e íngreme, atrás da qual se encontre uma planície belíssima e amena, que lhe parecerá tanto mais agradável quanto maior tiver sido o padecimento da subida e da descida. E, assim como os confins da alegria são ocupados pela dor, as misérias têm seus limites no contentamento que sobrevém.
A este breve aborrecimento (digo breve porque contido em poucas linhas) seguem-se logo o deleite e o prazer já prometidos, que talvez não fossem esperados de tal início, caso isto não fosse dito.»

Assim começa a primeira jornada do livro que Giovanni Boccaccio escreveu no seguimento da Peste Negra que se declarou em Florença em 1348. O Decameron, cuja tradução de Urbano Tavares Rodrigues para a editora Relógio d’Água pode ser requisitado na nossa biblioteca, quando abrir, constitui-se num conjunto de contos de amor narrados durante dez dias por dez jovens (sete raparigas e três rapazes) refugiados da epidemia numa espécie de quarentena dedicada ao amor.
Em 1971, Pasolini realizou um filme a partir da obra que está disponível no you tube.

2020-04-04

De canhão contra a peste - Garcia Márquez



A cólera tornou-se numa obsessão. Dela não sabia muito mais do que aprendera na rotina de algum curso marginal, e parecia-lhe inverosímil que apenas trinta anos antes tivesse causado em França, inclusive em Paris, mais de cento e quarenta mil mortos. Mas depois da morte do pai aprendeu tudo quanto se devia aprender sobre os diversos tipos de cólera, quase como uma penitência para apaziguar a sua memória, e foi aluno do epidemiólogo mais destacado do seu tempo e criador dos cordões sanitários, o professor Adrien Proust, pai do grande escritor. De modo que quando regressou à sua terra e sentiu, ainda no mar, a pestilência do mercado e viu as ratazanas nos esgotos e os garotos nus a chapinhar nos charcos das ruas, não só compreendeu que a desgraça tivesse ocorrido como teve a certeza de que se repetiria a qualquer momento.
Não passou muito tempo. Em menos de um ano os seus alunos do Hospital da Misericórdia pediram-lhe que os ajudasse com um doente, recolhido por esmola, que tinha uma estranha coloração azul em todo o corpo. Ao doutor Juvenal Urbino bastou vê-lo da porta para reconhecer o inimigo. Mas teve sorte: o doente tinha chegado três dias antes numa escuna de Curaçau e tinha ido à consulta externa do hospital pelos seus próprios meios, não parecendo provável que tivesse contagiado alguém. Em todo o caso, o doutor Juvenal Urbino preveniu os seus colegas, conseguiu que as autoridades dessem o alarme nos portos vizinhos para que localizassem a escuna contaminada e a pusessem de quarentena, e teve que moderar o chefe militar da praça que queria decretar a lei marcial e aplicar imediatamente a terapêutica dos tiros de canhão de quarto em quarto de hora.
– Economize a sua pólvora para quando vierem os liberais – disse-lhe de bom humor. – Já não estamos na Idade Média.
Gabriel Garcia Márquez, O amor nos tempos de cólera, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987, pp.126-127

do segredo sobre a epidemia - Mann




E, durante todo esse tempo, seguia a pista do vergonhoso segredo que a cidade guardava cuidadosamente no seu seio tal como ele guardava o seu próprio segredo – e tudo o que conseguia saber alimentava a sua paixão com esperanças vagas e ilegais. Folheava jornais pelos cafés tentando encontrar uma reportagem do progresso da doença, e nas folhas alemãs, que tinham deixado de aparecer no hotel, encontro séries de relatórios contraditórios. As mortes variavam entre vinte, quarenta, cem, ou mais: e no jornal do dia seguinte a existência da peste era, se não rotundamente negada, pelo menos reduzida a alguns casos esporádicos que num porto de mar se justificavam. Depois disso, as prevenções vociferavam de novo, assim como os protestos contra o jogo pouco escrupuloso das autoridades.
E o nosso solitário sentiu que era uma espécie de cúmplice desse segredo; sentia uma fantástica satisfação em fazer perguntas a pessoas interessadas nele e em as obrigar a mentir descaradamente, negando tudo. Um dia atacou o gerente, esse homenzinho de passos ligeiros e sobrecasaca francesa, que se movia por entre os hóspedes durante o almoço supervisando o serviço e fazendo-se socialmente agradável. Ele parou junto da mesa de Aschenbach para trocar uma saudação, e o hóspede perguntou-lhe, com um ar negligente e casual: – Por que razão estão sempre a desinfetar a cidade de Veneza? – Uma ordem da Polícia – respondeu ele habilmente – como medida de precaução para proteger a saúde pública durante este tempo ardente. – Muito digna de louvor a Polícia – respondeu Aschenbach gravemente.
Thomas Mann, «Morte em Veneza», Os melhores contos de Thomas Mann, Lisboa; Arcádia, 1966, pp.74-75

Da fadiga que a epidemia provoca - Camus





Rieux e os seus amigos descobriram então a que ponto estavam fatigados. Com efeito, os homens das formações sanitárias já não conseguiam digerir esta fadiga. O doutor Rieux apercebia-se disso, observando nos seus amigos e em si próprio os progressos de uma curiosa indiferença. Por exemplo, estes homens que até aqui tinham mostrado um interesse tão vivo por todas as notícias que diziam respeito à peste já não lhes ligavam a menor importância. Rambert, a quem tinham encarregado provisoriamente de dirigir uma das casas de quarentena, instalada havia pouco no seu hotel, conhecia perfeitamente o número daqueles que tinha em observação e estava ao corrente dos mínimos pormenores do sistema de evacuação imediata que tinha organizado para aqueles que mostravam subitamente sinais da doença. A estatística dos efeitos do soro sobre os internados estava gravada na sua memória. Mas era incapaz de dizer o número semanal das vítimas da peste, ignorava se ela progredia ou recuava. E, apesar de tudo, mantinha a esperança de uma evasão próxima.

Albert Camus, A Peste, Lisboa: Livros do Brasil, pp.207-208